sábado, 6 de agosto de 2016


Para Luck

Numa pele, num pelo, numa palavra perdura o amor
No que era apenas uma boca no infinito dos desejos, um corpo, uma cor, fios crespos de cabelo, perdura o amor
No amor se transmutam e perduram palavras, ações, cheiros, dia-dia, cotidiano
A palavra amor, ao contrário das coisas tangíveis,  não se desgasta

Assim como na fonte perduram as pedras e o adormecimento da terra
Assim como na terra perduram as núpcias do céu e da terra
Assim como no vinho perduram a fé, o temor, as núpcias e o amor dos loucos e febris
Assim como na jarra que abriga o vinho e a água perduram a fruta, o céu e a terra

No amor perdura a paz, a desordem, a dor, a alegria, o encanto, o desencanto, a desilusão, a ilusão

O amor integra num só golpe a terra e o céu, os divinos e os mortais junto a si.
O amor integra e perdura numa pele, num pelo, numa palavra
O amor integra e perdura no que era apenas uma boca no infinito dos desejos, um corpo, uma cor, fios crespos de cabelo
O amor se transmuta e perdura em palavras, ações, cheiros, dia-dia, cotidiano

Amor é kairós, é cíclico, foge à cronologias. Que o amor seja eterno enquanto perdure...

quarta-feira, 30 de setembro de 2015



Para Luck VL
Ela tinha o corpo todo tatuado por mapas
Tinha o mundo no corpo.
Ele era via-láctea, imensidão cósmica.
Ambos eram universos a serem percorridos.
No prazer somos fendas, cheiros, secreções, gotas,
palavras desconcertantes.
Ninguém sabe do prazer daqueles que se tocam,
que abrem e mergulham em fendas escuras e porosas
que sentem cheiros
que dizem e gotejam.

O prazer é o maior segredo dos amantes.

terça-feira, 14 de julho de 2015


PARA LUCK VL
MÁXIMA MAGIA

Madrugada, máxima magia. Me muto. Mulher, menina, me mostro: manga, madura, melada, macia. Me morde. Medo, malícia, mergulho, mistério, mistura. Me mata. Man? Menino? Muleke milgrau: manobra magrela. Muleke milgrau: marcha à margem. Mistura música, menino, menina. Movimento musical move a mudança. Me morde. Mamilo me mostra. Mistura malícia, maldade, madrugada. Magnetismo move o magma. Mímese, mistura. Madrugada – maremoto. Manhã – maresia.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Da ausência

Se você viesse todos os dias os amanheceres não teriam a cor da frescura e da ausência. Porque a ausência pode ser cintilantemente colorida e cítrica. Não haveria o desejo que repousa nas ausências verde-claras e aveludadas. Sim, porque a ausência pode ser tocada, ouvida e cheirada. Não haveria a lembrança do murmurar da respiração, do calor, do toque, das palavras. Não haveria meu canto nem o som das folhas que voam livres ou a percepção da poeira no vento e os pássaros no céu. Não haveria a borboleta que desabrocha nem a erva daninha que brota da fenda do muro. Não venhas sempre. Tua ausência-alimento-poesia é sábia.

Seguir

Guardar cada coisinha.
Embrulhar, separar, limpar.
Rever fotos, fazer copias, mandar pros amigos.
Dobrar as roupas, colocar em caixas, numerar, etiquetar, nomear.
Ir guardando e lembrando onde, como e quando comprou.
Ver as peças que estão quebradas. Guardar até os pedacinhos. Na rearrumação, colar. Lembrar de histórias que se quebraram, que se perderam, que começaram, que se reformaram... Histórias pequenas, de uma página, histórias longas, histórias em quadrinhos, tirinhas, pequenos contos, crônicas, livros inteiros, histórias sem fim, sem pé nem cabeça.
Recordar algumas histórias, alguns amores, amizades. Lembrar daquelas coisas nunca realizadas e das surpresas do caminho.
Uma nostalgia de cada coisa.
Cada coisa, por menor que seja, leva uma lembrança.
Presentear com aquilo que não se quer mais, mas que por muito tempo guardamos afeto.
Mudar.
Alguns perguntam: nossa, mas como você tem coragem? Você gosta?
Sim, eu gosto.
É uma forma de acariciar a si e à memória.
É uma forma de acalentar o coração.
É uma forma de sentir uma ponta de medo e um nozinho na garganta do inesperado.
É projetar um mundão de sonhos. Talvez, se continuasse aqui, os dias seriam quase automáticos e essa projeção iria cair também no dia-dia-máquina.
É a curiosidade pelo novo, pelos novos encontros, pelas novas pessoas, situações, paisagens, sotaques que entrarão na vida.
Por isso cada coisa tem que ser guardada com carinho, sem pressa, com cuidado.
São pedaços da vida, fragmentos de lembranças.
Histórias.
água-luz
situação-impregnação
imersão-harmonia
vida-movimento
vida-luz

fusão

sexta-feira, 22 de agosto de 2014




Sobre cinema, escola, garças e macarrão com feijão
Baixada Fluminense, mais precisamente São João do Miriti. No CIEP José Lins do Rego (Brizolão), alunos andam pelos corredores da escola com suas telas pintadas, professor me conta a experiência com Cinema na escola: filme feito pelos estudantes que participou de Mostra de curtas, o cineclube organizado por ele que se chama... "cineclube!". Almoço marcarão parafuso com carne moída e feijão preto // na escola//. Na rua próxima à estação do metrô Pavuna, frenesi. Muita gente se mistura às bicicletas, ônibus, motos, à agua que escorre próxima às calçadas e às barracas onde se encontra de tudo: lingeries, doces, ovos, peixe, frutas, verduras, roupa infantil, caranguejos, parafusos, capas para celular, fones de ouvido. Compro uma imagem de São Jorge e incensos Vencedor de demanda e Dama da noite na loja de artigos religiosos. Na feira compro uva sem semente e morangos. Peço pra tirar fotos. Vendedor diz: "depende, pra que?" O céu é azul e as garças parecem estátuas no parapeito de algumas construções históricas que ainda restam na caótica, mas muito organizada, paisagem urbana e disputam espaço com os sacos de lixo que estão semi-submersos no córrego que passa próximo à estação do metrô.